quarta-feira, 11 de março de 2020

Confusão entre policial youtuber Gabriel Monteiro e coronel no Rio gera tensão e chega a Moro

Poucas semanas depois do motim de policiais no Ceará, o Rio de Janeiro vive também uma polêmica que mistura Polícia Militar e política. Um embate envolvendo um soldado youtuber e um coronel tem gerado tensão na corporação fluminense e na internet e já chegou até ao Ministério da Justiça de Sergio Moro.
Na última quinta (5), o policial Gabriel Monteiro, 27, publicou um vídeo acusando o coronel da reserva Ibis Pereira, 56, que foi comandante-geral da PM em 2014, de conluio com uma facção criminosa, sem apresentar provas. A partir desse dia, sugiram duas ondas de solidariedade nas redes sociais, que incluíram políticos e policiais: uma a favor de Monteiro e outra a favor de Pereira.
O soldado tem 1,8 milhão de seguidores no Facebook, já foi do MBL (Movimento Brasil Livre) e costuma defender Jair Bolsonaro (sem partido) e pautas da direita. Já o ex-comandante é conhecido por falar de direitos humanos na segurança pública e hoje é pesquisador e assessor da deputada estadual do Rio Renata Souza (PSOL). Ambos foram procurados, mas não deram entrevista.
Monteiro diz na gravação: “Recentemente eu recebi uma mensagem de um morador da favela que desabafou comigo, falando que o coronel Ibis, o ex-comandante-geral da PM, estava em conluio direto com o Comando Vermelho. […] Eu fui questioná-lo, porque eu tinha fotos do coronel Ibis dentro do coração do CV, dentro da Maré [até agora não mostradas], onde nenhum policial consegue adentrar, a não ser o Bope e o Choque com uma megaoperação. E o Brasil todo ficou sabendo que o coronel Ibis não soube responder às minhas perguntas”.
O soldado se referia a vídeos que publicou no ano passado, abordando o coronel em ao menos duas ocasiões e lhe fazendo perguntas. Ele reclama, na gravação mais recente, que por causa dos seus questionamentos está sendo submetido a um conselho disciplinar e perdeu seu porte de armas e funções externas na PM.
Ele de fato está respondendo a um procedimento interno na Comissão de Revisão Disciplinar, previsto para avaliar conduta dos agentes, como informou a Polícia Militar. “A PMERJ tem como pilares os princípios da hierarquia e disciplina. Vale ressaltar que o rito do procedimento prevê a ampla defesa e o contraditório quanto às imputações de transgressões disciplinares nele contidas.”
Diante da tensão e da alegação de Monteiro de que vem recebendo ameaças de morte de integrantes do Comando Vermelho –sem detalhá-las–, o senador Marcos do Val (Podemos-ES) pediu ao Ministério da Justiça proteção ao soldado. A pasta confirmou que recebeu o requerimento, mas disse que ele ainda não foi analisado: “Informamos também que não há envolvimento da PF e não há agenda prevista neste ministério com o citado”.
O PM foi à Câmara dos Deputados em Brasília nesta terça (10), acompanhado do deputado Otoni de Paula (PSC-RJ), por isso sua assessoria afirmou que ele não teria disponibilidade para dar entrevista a tempo da publicação desta reportagem. Questionada, porém, a equipe não disse com quem ele se encontrou.
Em resposta às acusações, o coronel Ibis tem rebatido que não cometeu qualquer crime e que questões internas das corporações militares não devem ser comentadas publicamente por seus agentes. “Trata-se de uma ação leviana, descomprometida com o bem da instituição, em busca de holofotes em um ano eleitoral”, publicou. À Folha, ele afirmou que não gostaria de falar mais sobre o caso.
No programa ao vivo Aqui na Band, nesta segunda (9), o ex-comandante argumentou que não está mais na ativa e que foi apenas convidado para dar uma palestra em 2019 no Complexo da Maré, na zona norte carioca, o que acabou não acontecendo.
“Eu iria falar naquela ocasião sobre estrutura de segurança pública no Brasil para moradores daquela localidade”, disse ele. “Para quem não conhece, eu gostaria de dizer o que é a favela da Maré”, continuou. “Ela tem 140 mil moradores, a maioria gente de bem, gente pobre, gente honesta. Ela não tem 140 mil bandidos. Dentro da Maré existem equipamentos públicos, tem quase 50 escolas e um batalhão da PM. O local onde a palestra ia acontecer fica a menos de 100 metros de um batalhão. Eu não tive que negociar com traficante.”
REDES SOCIAIS E SITE CLONADO
A polêmica ganhou corpo com a manifestação de diversas partes nas redes sociais, incluindo a própria PM, o governador Wilson Witzel (PSC) e o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).
Neste domingo (8) o site da corporação fluminense foi clonado, exibindo a frase “Como entrar na favela da Maré sem levar tiro” e uma foto do coronel Ibis Pereira. Ainda estava fora do ar até a tarde desta terça.​
A Polícia Militar respondeu a uma publicação de Monteiro no Twitter, dizendo que o soldado está na ativa há quatro anos e que já respondeu a mais de 70 faltas disciplinares, a maioria delas por falta ao serviço. “Seu comportamento é classificado como mau, com 16 punições em sua ficha”, escreveu. Sobre o coronel, a corporação disse no mesmo post que “não há denúncia contra o oficial em questão. Caso seja apresentada, ela será apurada com base nos regulamentos da Corporação”.
FOLHAPRESS

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